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Voluntariado e Civilização

Voluntariado e Civilização

Foi no século XIX que os franceses consolidaram o termo civilização, depois mitigado pelos estudos antropológicos do século XX. Mas uma coisa ficou da ideia original: o conjunto de posturas e práticas que permitiam identificar os seres humanos como iguais, universalmente. 

Pois bem, apropriando-me livremente da ideia de civilização, afirmo que o que ocorre no mundo, hoje, em torno da pandemia do coronavírus,  é uma tensão civilizatória: de um lado todos os que entendem que é preciso sacrificar algo do futuro para garantir o fundamental no presente, ou seja, a vida e a saúde das pessoas; por outro lado, aqueles que consideram que a economia e, em geral, a economia que eles gerenciam, é mais importante do que as vidas em jogo. A tensão se materializa em torno da luta por convencer as pessoas ao distanciamento social, questionada pelo grupo que vê nas consequências econômicas um desastre maior do que o risco de contaminação. Por isso, buscam minimizar o estrago, usando a palavra horrenda, “apenas”. 

Quando defendemos os outros, e usamos nosso tempo, nosso empenho físico e nosso intelecto nisso, queremos manter algo que é muito concreto - vidas humanas - mas também algo muito simbólico: a ideia de que todos são importantes. Todos. Universalmente, sem distinção de nenhuma natureza. E quando muitas pessoas colocam filtros nessa ideia civilizatória, usando o “apenas” ( o número de contaminados será "apenas" de; o número de mortos será "apenas" de, enquanto a economia perderá tantos bilhões), operam contra essa ideia de civilização que resgatamos, dia após dias,  por meio das medidas corretas de algumas autoridades, pelo esforço das instituições de pesquisa, dos hospitais, de empresários, pela ação anônima e incansável de milhares de voluntários.

Há, em jogo, uma urgência de tempo, para encontrarmos saídas eficazes contra os problemas e dramas que se acumulam: auxílio financeiro, alimento, abrigo, afeto. Há, em jogo, também, um projeto que nunca foi de todo abandonado, embora tantas vezes atingido em sua possibilidade: o de resgatar a dignidade humana, a igualdade das oportunidades e o valor de cada cidadão acima de quaisquer interesses. Porque deve ser assim. Porque somos capazes de fazer assim. Porque é o certo a fazer.

Quarentena Solidária
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